Talvez daqui a alguns anos a gente lembre de outubro de 2026 como o mês em que a animação adulta brasileira parou de pedir licença em festival estrangeiro. Ana, En Passant foi a única animação da mostra competitiva do Festival de Brasília em setembro, abrindo a competição, e agora saiu do VIFF, em Vancouver, com o prêmio do público na mostra Vanguard, num festival que exibiu 162 longas de 76 países.

A história acompanha Ana, uma jovem negra franco-brasileira que vive em Paris e perde a avó, Alice. Numa caixa com carta, fotos e um endereço em Belo Horizonte, ela encontra o caminho de volta para a cidade, onde conhece outra mulher chamada Alice, moradora do antigo apartamento da avó. A atriz Jéssica Pierina dá voz às duas, e o elenco tem ainda Zezé Motta e Carlos Francisco, com trilha do trio Metá Metá.

A base do filme é a rotoscopia, em que os animadores desenham por cima de atuações filmadas, e as cenas com o elenco foram gravadas durante quatro semanas no Polo de Cinema de Cataguases, em Minas Gerais. Por cima disso entram desenho 2D, colagem, pintura sobre vidro, aquarela, stop-motion nas cenas de deslocamento pelo mapa e até impressão fotossensível sobre notas fiscais. Cerca de 60 animadores trabalharam remotamente, sob direção de Fernanda, ao longo de oito anos, numa coprodução do Apiário Estúdio Criativo, de Belo Horizonte, com a portuguesa Sardinha em Lata e a francesa Midralgar.

Fernanda disse à Revista de Cinema que parcerias são mais fáceis na animação porque o desenho apaga a pergunta sobre de onde vêm os atores e a equipe. É um raciocínio que combina com o momento da animação nacional, que vem ganhando espaço nos festivais grandes, como fez Amadeo, a animação feita em Caruaru que entrou no Festival do Rio. O roteiro de Ana, aliás, foi selecionado em 2012 para o Script Station, programa de desenvolvimento de roteiros do Berlinale Talents, na Alemanha.

A distribuidora francesa Miyu cuida das vendas internacionais, e o lançamento nos cinemas brasileiros, segundo o Jornal Opção, está previsto para 5 de novembro, pela Embaúba Filmes. Um filme que levou 14 anos entre o roteiro e a tela agora tem três semanas para encontrar o público da cidade onde ele se passa.