Ler uma falência pelos documentos do tribunal tem um efeito estranho, porque boa parte do que aparece ali é uma lista de contratações. A Character Technologies, dona da Character.ai, plataforma em que usuários conversam com personagens criados por inteligência artificial, entrou com pedido de recuperação judicial no tribunal de Delaware em 12 de outubro e avisou que o serviço será desligado. No mesmo pacote veio a Disney, com uma oferta de US$ 20 milhões que serve de piso para o leilão dos ativos.
O que a Disney compra diz muito. Segundo os documentos do processo, detalhados pelo PPC Land, a oferta cobre uma licença perpétua e não exclusiva do código de treinamento, segurança e operação dos modelos, além de nove patentes. Ficam de fora o aplicativo, a marca, os dados e as conversas dos usuários, os dados de treino e os modelos prontos. A empresa ainda tinha cerca de 12 milhões de usuários mensais e queimava uns US$ 8,2 milhões por mês em agosto.
Dos cerca de 86 funcionários de tempo integral no fim de setembro, 66 aceitaram vagas na Disney, com um pacote estimado em US$ 180 milhões ao longo de três anos entre salários e bônus de retenção. O ex-CEO Karandeep Anand já tinha saído em setembro para virar diretor de tecnologia da própria Disney. Na prática, a Disney fica com o conhecimento sem herdar a plataforma, seus usuários e seus problemas jurídicos.
Tem uma ironia difícil de ignorar. Em setembro de 2025, a Disney mandou uma notificação para a Character.ai exigindo a retirada de personagens dela que usuários tinham recriado no app sem autorização. É a mesma empresa que hoje processa geradores de imagem por uso de propriedade intelectual, como no caso em que a Midjourney tentou expor o uso de IA da Disney e da Warner. Fico com a impressão de que a Disney quer IA conversacional com seus personagens, desde que o personagem, o código e a equipe estejam dentro de casa.
O calendário do leilão marca propostas até 20 de novembro, disputa no dia 23 e audiência de venda no dia 24, e qualquer concorrente precisa oferecer pelo menos US$ 21,7 milhões. Até lá a plataforma segue no ar, e os 163 milhões de pessoas que já passaram por ela vão ser avisadas por post de blog, site e aplicativo, sem nenhuma garantia sobre o destino dos personagens que criaram.