Um consórcio internacional de 41 pesquisadores ligados à rede Openverse, com nomes de instituições como UC Merced e SKEMA Business School, publicou um estudo na Proceedings of the National Academy of Sciences propondo um conjunto de padrões para pesquisa científica feita em realidade virtual. O argumento central é que a tecnologia amadureceu mais rápido do que as regras compartilhadas entre os laboratórios que a usam, cada um a seu próprio jeito.

Anand van Zelderen, fundador da Openverse
Anand Van Zelderen - fundador da Openverse

Um dos autores, Anand van Zelderen, fundador da Openverse, resumiu o problema dizendo que a pesquisa em VR corre risco de virar território sem lei, com metodologia inconsistente de um estudo para outro. Isso já vinha contribuindo para a chamada crise de replicação nas ciências comportamentais, quando um resultado publicado num laboratório simplesmente não se repete em outro, e ninguém sabe dizer se o problema é a hipótese ou o jeito como a simulação foi montada. Boa parte dessa simulação roda no mesmo hardware de consumo que amadureceu nos últimos anos, headset originalmente pensado para jogo e entretenimento.

A proposta tem três frentes. Interoperabilidade, com engines comuns e padrões abertos para permitir que a mesma simulação rode em laboratórios diferentes. Padronização de procedimento, cobrindo desde o roteiro de instrução ao participante até a medida de presença em VR, ética e acessibilidade. E compartilhamento de dado, liberando código e ativos virtuais para qualquer time replicar o experimento do zero. Um checklist interativo já está disponível em vrprotocols.org para quem quiser aplicar isso na própria pesquisa.

Boa parte da engenharia por trás disso vem de motor de jogo comercial, do mesmo tipo de Unreal e Unity que rodam título AAA na Steam, emprestado pela ciência para um uso que a indústria de entretenimento nunca planejou. A ciência está pedindo emprestada uma ferramenta de entretenimento, e o próximo capítulo dessa troca pode ser o motor de jogo aprendendo de volta algum rigor metodológico com os próprios cientistas que hoje dependem dele.