Tem uma cena de Meet Joe Black, filme de 1998 com Brad Pitt e Anthony Hopkins, que virou meme muito antes de meme ser meme. O personagem de Pitt atravessa a rua, é jogado para o alto por uma van, cai na frente de um táxi que vem no sentido contrário e capota no ar para o outro lado. Tudo num plano só, sem corte. A revista de efeitos visuais befores e afters acabou de publicar um vídeo explicando como a ILM montou aquilo.

O detalhe que faz a cena funcionar é justamente a ausência de corte. Cortar entre o impacto da van e o do táxi seria fácil e resolveria o problema, mas o diretor queria a coisa inteira contínua, para o espectador não ter chance de respirar. Isso obrigou a ILM a costurar digitalmente elementos filmados em momentos diferentes, com dublê preso a cabos, dentro de um único movimento de câmera.

Em 1998, isso era trabalho de ponta. Não existia a caixa de ferramentas de hoje, com tracking automático, simulação de corpo e limpeza de fio quase instantânea. Cada quadro daquele plano foi resolvido quase na mão, e o resultado ainda segura o olhar quase trinta anos depois.

Vídeos assim, que voltam a um plano antigo e destrincham como foi feito, têm mais valor do que parece. Muita técnica de VFX nunca foi documentada direito, mora na cabeça de quem estava lá, e some quando essa pessoa se aposenta. Um breakdown desses é preservação, mesmo quando parece só nostalgia.

Se você curte esse tipo de bastidor, vale procurar também como a ILM trabalhou nos efeitos de The Mandalorian e Grogu, o mesmo estúdio resolvendo um problema parecido com a tecnologia de agora. O contraste entre as duas épocas mostra o quanto a ferramenta evoluiu, e o quanto o problema de base continua o mesmo, fazer o público acreditar.

O plano de Meet Joe Black tem quase trinta anos e ainda aparece como exemplo em aula de VFX. Poucos efeitos digitais recentes vão poder dizer o mesmo.