Existe algo estranho em anunciar o remake de um jogo que nunca precisou ser resgatado. Heroes of Might and Magic 3 saiu em 1999 e continua sendo jogado hoje, com uma comunidade que mantém expansões feitas por fãs atualizadas e partidas online funcionando. Mesmo assim, a Ubisoft revelou na gamescom uma refação completa do clássico, prevista para 2027.
A parte técnica é ambiciosa. O jogo está sendo reconstruído do zero na Snowdrop, a mesma engine de Star Wars Outlaws e Avatar Frontiers of Pandora. Sai a perspectiva isométrica em 2D e entra uma câmera 3D livre, com 4K, iluminação dinâmica, clima em tempo real e estações que mudam ao longo da partida. Estão incluídas as nove facções, as campanhas originais e as duas expansões, Armageddon's Blade e Shadow of Death, agora amarradas em uma história contínua com um prólogo novo. O combate mantém a grade hexagonal do original, só que renderizada em 3D.
O detalhe que me faz pensar é quem está fazendo. Os estúdios da Ubisoft em Chengdu e Xangai lideram o projeto, com apoio de equipes em Paris e Montpellier. Um marco da estratégia de jogo ocidental, nascido nos Estados Unidos no fim dos anos 1990, está sendo reconstruído principalmente por equipes chinesas para um público global. Não é crítica, é constatação de como a produção de games se distribuiu pelo mundo nos últimos vinte anos. O remake também entra na conta de uma empresa que prometeu anos mais fortes depois de um 2026 discreto.
Só que remake de jogo de estratégia por turnos é um terreno delicado. O apelo de Heroes 3 nunca foi gráfico. Era o equilíbrio de unidades, a leitura de mapa, a matemática de exército, coisas que a comunidade decorou ao longo de duas décadas. Mexer na câmera e na iluminação é seguro. Mexer no balanceamento, na interface ou no ritmo de turno é onde um remake desses ou acerta ou perde justamente quem manteve o jogo vivo. Os primeiros comentários no trailer já mostram uma parte dos fãs de pé atrás.
Fico com uma pergunta sem resposta boa. Quando um jogo já resolveu o problema que se propôs a resolver, e as pessoas ainda jogam a versão de 1999 por vontade própria, o que exatamente um remake adiciona além de uma vitrine mais bonita? Talvez a resposta seja que ele não precisa adicionar nada, só não pode tirar.